poesia de inspiração angolana
Quarta-feira, 22 de Março de 2006
Caculuvar

Nas pedrinhas do Caculuvar,
brincava meu amor
- e como era bom lá brincar!

Era o tempo de águas cantando;
das folhas caídas,
que os pés, descalços, pisavam.

Águas correram pela vida,
em rápidos, nas estreitas passagens,
nas travessias das pontes do medo.

Distantes hoje estão os regatos
da infância, a pureza.
Fresca, só esta ferida.

Nas pedrinhas do Caculuvar,
brincava meu amor
- e como era bom lá brincar!



publicado por zé kahango às 01:48
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O BAPTISMO DA MUILA
Clareava a manhã, bem cedo naquela cubata:
uma criança nascia, num eumbo da Humpata;
logo seu pai correu a soar a ongoma,
e matou um tchincombo que se coma...

Recém-nascida era a bela muilinha,
o kimbanda rapou-lhe a cabecinha;
seus cabelinhos anos serão guardados,
pela mãe ciosamente conservados.

Um mês passado o nascimento,
o seu baptismo terá então lugar,
sem o que o amor não pode voltar;
terá seu nome do pai assentimento.

O padrinho com gunde lho dará,
peles e panos, num cinto de couro:
seus primeiros atavios lhe colocará.
Finalizam com macau, em ocaso d'ouro...



publicado por zé kahango às 01:47
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AMOROSA NASCENTE
Descalça brinca na fonte;
Paula, minha linda muhuila;
beleza que eu sempre cante,
como nas suas mãos a argila.


publicado por zé kahango às 01:47
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Bimbe

No platô, para lá do paredão,
margem direita do precipício,
tiveram avós e pais vida difícil.
Muitas sementeiras de cereais,
muitas canseiras, muitos ais,
para ver crescer seu pão.

Dia após dia, cedo escurecia;
pela névoa cerrada anoitecia:
o tesouro da água de rega,
vinha lá de baixo da serra
(prodígio anti-gravitacional),
- seu pão, sua luz, o seu sal!



publicado por zé kahango às 01:45
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Águas do Bimbe
divina, vinda
dos céus
para o platô;

descendo os degraus,
brincando,
cantando a alegria
da sua pura natureza, inquieta
o tchikokólo que espreita;

a caminho de todas as chitacas,
de todos os rios e bocas
da terra sagrada.



publicado por zé kahango às 01:43
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A Aventura
Por entre mahanandimbas
quis descer a fenda.

Descer pelas róseas rochas
do nosso planalto,
em Chela alçado
(que para os homens
mais próprio sempre é descer...).

Desço agora desta casa de gigantes,
destes degraus trepados
por valentes ilhéus
como se a aventura se refizesse
em movimento inverso...

Desço em procura
de raízes, profundas,
das mães dos povos, dos avós.

Junto ao fundo da fenda
estarei mais perto;
dos segredos,
da Eternidade.



publicado por zé kahango às 01:42
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Mukanda da Hunguéria
estou na catedral
das rochas verdes,
das águas frescas

estou entre as mãos
da Mãe-Terra

e bebo os sons
de um longínquo kissange



publicado por zé kahango às 01:40
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Mukanda de Capangombe

Neste lugar
d'África
instalei o meu altar:

neste lugar
ouço o silêncio
de estar a sós com Deus.

De mim perdido,
agora neste lugar
me encontro.



publicado por zé kahango às 01:39
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Rafael

Rafael, meu filho,
vem; das celestes paragens desce
(para onde há vinte anos emigraste).

Vem, pela mão de um anjo,
desce à nossa chitaca,
vem nela passear (- ouve o riso do teu mano...)!

Vem, de mãos dadas
passaremos a Laplace
e verás de tua mãe iluminar-se a face!

Vem, libertaremos da saudade os ímpetos,
descobriremos novos aromas nos eucaliptos,
contemplaremos a frescura da cascata
- esta é a terra dos avós, a Humpata!

Vem, Rafael, meu filho;
leva-me nas tuas asas para o Iona,
fala-me das outras divinas cores
que conheceste em todos esses anos de mim distante;
apaga-me esse apagado tempo em que tão árido fiquei,
como esse deserto...

Olha, meu Amor,
aquela curva do Cunene,
bela e solene,
à nossa espera: vamos apagar a solidão.

Estão lá, na mesma margem,
duas rochas quase planas, como lajes,
onde podemos ficar a olhar o carmim deslumbrante do ocaso.

Fica um pouco mais comigo neste dia,
esperando aquele em que juntos para sempre estaremos.



publicado por zé kahango às 01:38
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À Minha Amada
Nos encantos e labores
da bela serra huilana,
esperava meus amores:
minha amada angolana.

Quão de mim distante fosse,
tanto mais amor chegasse
à árvore de fruto doce:
botão nascido em Laplasse!...


publicado por zé kahango às 01:35
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estacas

de estaca
plantava meu pai
o que o seu tio
já plantava:

plantou bem fundo no meu peito
esta agridoce paixão africana...

cinquenta anos o rebento germinou;

um dia minha alma acordou, surpreendida,
ao colo das raízes de um embondeiro...



publicado por zé kahango às 01:34
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do Bimbe ao Namibe
Dos férteis regadios da Humpata,
pela manhã levantei vôo da chitaca;
do alto divisando a geometria dos valados
sobrevoei o planalto de contornos ondulados.

Chegado à linda Leba, ninho de líricas águias,
onde o meu Irmão Valério erigiu sua Pousada,
meu breve olhar galgou o paredão róseo,
degrau de gigantes, pela serra abaixo.

Seguindo o serpentear do Munhino,
cada vez mais clara se tornava a aridez;
ao longe, avistava-se o azulado horizonte marinho.

Com a baía de Moçâmedes pelo poente,
continuei rumando ao sul, para o belo deserto.

É neste oásis espiritual que se admira a admirável,
tão paradigmática quanto a estranha dualidade humana:
a welwitchia, medrando teimosa na maior secura.

Com duas folhas apenas (como homem e mulher),
lentamente crescendo e sempre se afastando,
tocando-se quando se enrolam, às vezes nunca na vida,
um drama inteiro, sob a doce luz oblíqua na areia fina.

Mais longe, o grande Cunene entre gargantas rochosas.

Nas distantes monumentais dunas do Namibe, as arestas de areias vivas,
os ocres quentes,
o Silêncio Divino.


publicado por zé kahango às 01:33
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Pouco Nos Resta...

dos homens já pouco mais nos resta
que os olhos grandes dos meninos assustados
que as sombras sobre a face das suas mães;
de homens já pouco nos resta.

resta-nos uma geografia pobre
como a dos pés cheios de gretas
(que das mãos os calos já se desfizeram,
por falta de terra, perderam as enxadas sentido)

despojados de todos os sentidos,
falta-nos tudo para Homens sermos;
e é com o pouco que deles nos resta
que de nós Deus espera dobremos a aresta



publicado por zé kahango às 01:32
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kimbo de pedra

Vinde,
da Humpata a chitaca não dista muito.

Aqui, nossas simples casas
todos acolhem,
com a fresca paz
do seu chão de lajes cor-de-rosa...

Nelas,
ouviremos contar as histórias
dos nossos valentes avós.



publicado por zé kahango às 01:30
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um dia na chitaca

pela chitaca deambulando,
durante todo o dia andei,
todos os segredos aprendendo,
subindo e descendo, caminhei.

arranhei-me nas espinheiras,
enlameei-me nas mulolas.
encostado às mulembas,
à sombra matando a sede,
por um fresco nó de bambu,
feliz de cansaço, descansei.

num dia, todo o universo
toda a vida, o mundo todo,
vivido fosse com a alegria
da chitaca, apenas de um dia...



publicado por zé kahango às 01:29
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Dulcissima fragrância

Aqui, queridos amigos,
no encontro da serra com o deserto,
avistando o horizonte pela fenda,
cá encontrareis vossos abrigos
- que do coração a chitaca está bem perto,
e nela podereis instalar a vossa tenda...

Do chão que nos abraça,
vem um calor de mãe,
dulcissima fragrância;
pelos puros ares enlaça
esta terra, a quem vem
pelo sentido da existência.



publicado por zé kahango às 01:28
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chitaca

entre as nascentes
e os mukuluventes,
mirangolos e mandombos;
frutos do mato,
aromas envolventes;

abundantes águas,
jambros, mambolemboles,
noxas e anonas;

caminhava, ria,
pés soltos sobre o capim,
soltando-se, voava, a alegria,
que ainda hoje não cabe em mim.



publicado por zé kahango às 01:25
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Chitaca do Bimbe

Voltei. Estavas bela.
Por ti, subiram nossos avós a Chela.

Quinhão do Paraíso sobre a Terra, concedido;
por esforçados braços, à Natureza merecido.

No chão que o labor lavrou,
nesse chão, que o suor fecundou;
nesta terra, sempre o nosso coração ficou.

Nela, novos socalcos de poesia sulcaremos;
aqui, agora e sempre estaremos!



publicado por zé kahango às 01:24
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Povos do Sul

Era uma vez um kuvale,
vida sem boi não vale;
era uma vez uma muhuíla,
crista pintada em argila;
era uma vez um muhumbe,
traz mel e abelha que zumbe;
um nhaneca da Donguena,
trazia linda mufikuena.

Era uma vez um ganguela,
caçou esbelta gazela;
um que veio era Gambo,
outro veio do Quipungo;
o que chegou era Hinga,
ouvira falar da Ginga;
lá das bandas de Quilengues
até vieram os kandengues.

Meu amigo, e os Mucuisses?
Apanhavam-te, se fugisses!



publicado por zé kahango às 01:23
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Onde estás?
Em desespero,
por ti procuro,
pelo deserto corro.

Onde estás? Onde estás?

Nas velozes patas das gazelas?
Atrás das listras das zebras do Namibe?

Nas grutas por ti procurei,
folhas de welwitchia levantei;
muitas avestruzes espantei,
entre mutiatis me perdi.

Dentro de um oco tronco de embondeiro espreitei,
ao longo do Cunene segui, até à Ondjiva corri.

Às pontas dos olongos indaguei:
"Onde estás? Onde estás?"
(...o eco seco do deserto
no vazio soa, sem regresso...)

As espinheiras revirei, a volta dei,
pelo Pico do Azevedo procurei;
pelo Bruco a serra trepei.
Temendo perder-te, meu coração explodir não quis:
subiu gritando - "Onde estás? Onde estás?"

Sem ecos, ressoa, no céu rebomba
o trovão, as águas;
será sob esta chuva que te vou encontrar?

Ah! Huíla, Huíla,
Chão da Minha Amada,
diz-me se é aqui que acho a chave,
a chave do fecho deste desespero:

Onde estás, onde estás, Meu Amor?


publicado por zé kahango às 01:20
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