queria agora não me lembrar
do murmurejar nas valas,
da luz da Humpata
queria agora não me lembrar
de no paraíso à noite olhar
procurando o Cruzeiro do Sul
queria agora não me lembrar
da goiaba, do leite azedo
lá estar não posso,
lá estar no tempo eterno
queria agora não ter de me lembrar
Fazei soar o chifre de olongo!
que sobre o largo horizonte
o seu toque se espalhe...
notícias, mukandas, novidades,
velozes voam, sobre a terra,
sobre o deserto,
subindo à serra;
antecipando viagens,
aquietaram-se os bois nos sambos,
silenciando encostos de chifres,
espectando pelas novas;
esperando novas também os homens,
fazendo fumegar os cachimbos,
sabendo que terão de conduzir as manadas
para outras paragens...
o fim da espera ao longe já surge;
de movimento, o tempo urge.
Neste Mundo tão redondo,
se longe estou, perto a sinto;
se me perguntas, que respondo?
Se em casa, nunca faminto!
Nela tenho meus Irmãos,
Pais, Filhos e Avós;
esperando por todos nós,
confiantes, dando-se as mãos.
O que vale uma bandeira,
o que valem as memórias;
que valem lutas e glórias?
Vermelha já é a terra;
e quente, se o coração nos cerra...
E após chuva, que bem cheira!
que dizer se procuramos,
continuamente indagando
nossas dúvidas...
que dizer, poetas angolanos?
lembrai os poetas andaluzes,
que uma luz mais crua cantaram...
que dizeis, meus amigos,
de uma Terra-Gigante,
que se rasga, que se alarga,
em doces tons de cores vivas...
que se eleva, queimando lixos,
queimando ervas daninhas
sob a doce luminosidade
de eternos ocasos, de tempo parado
de tempo pronto, de tempo sem espanto
(espantosos e espantados eram os andaluzes)
mas onde vós estais nunca o sol se põe
é tudo de manhã
e te levantaste cedo,
foste ao quintal e comeste pitangas
Que sabes tu, dengue yanguê , do sofrimento?
Que sabes tu de pés gretados pela longa viagem,
que sabes do cansaço do caminhante?
Tatiê , tatiê ! Hu-um !
Dengue yanguê, irmão meu:
imaginar maldades está vedado a almas caridosas como a tua!
Meu amigo, irmão meu,
souberas tu a dor do meu peito, a aflição,
por reencontrar aquela que me prende o coração,
do desepero com que por ela tenho procurado!...
Souberas tu da ferida,
ferida viva que me atormenta os dias,
que um ácido diário corroi, impedindo-a de sarar...
Souberas o nome - ajudar-me-ias -
da indiferença, do desprezo,
dunas do deserto que palmilho...
Como sob as pontiagudas pedras que calcorreio
desapareceu a esperança,
como escassa água em solo ressequido...
Ah, amigo meu, irmão da minha alma, já se me fraquejam os passos
- que a voz há muito emudeceu!
Dengue yanguê :
não queiras disto saber,
que um mukulo-kulo pouco importa.
Poupa a tua mente formosa a estes lamentos,
que pelo deserto sigo o meu caminho.
Mas - kitawela ! - nem penses
em deitar-me um olhar de comiseração,
que ainda não se me romperam os nonkakos !
A caminho do planalto
ao cair da noite quente...
...longas tranças pelos meus dedos deslizaram
sobre a pele de seda de uns ombros
meus lábios pousaram...
No Cuangar subi ao planalto...
os que brandiram a zagaia,
os alegres,
os de serra-abaixo,
os kuvale,
em Capangombe pastam suas manadas
para que lhe não fugisse
a minha alma de guelengue
na doce calma de Quilengues
um inocente olhar tanto me disse
Para trás ficara o Viriambundo,
seguia para lá da Cahama,
rumara ao Sul procurando
a sua princesa cuanhama.
O Cunene atravessara,
na margem certa estava;
os embondeiros assinalavam
o que para a vida inteira não chegava.
Gastos os nonkakos,
nas pedras e secas mulolas,
eis que lhe surgiu, como miragem.
Foi forte visão, contrastada,
impacto brutal, choque solar.
Tomou-se-lhe de amores, o meu amigo
- perdeu-se, ou encontrou-se...
Ah, destino da tristeza:
nos braços de ébano se acabar,
nos lábios do maboque o sabor,
da Cuanhama Princesa.
Ah, amigos meus! A paixão me prende...
aos lábios dessa Muíla, desde esse dia.
Presos meus olhos aos seus encantos,
à espera do seu olhar
sangra-me o peito na demora
de saber o seu sabor...
Do oriental setentrião,
do lendário Gengis Cão,
veio em perdida emigração.
Atravessados vales, subidas serras,
escalados montes, achadas as fontes,
encontrou as prometidas terras.
Aqui um povo encontra seu destino,
sua paz, seu sorriso de menino.
Em remotos genes, a eterna Alma
que em África sempre se renova.
conheces o cheiro dos mutiatis
quando a noite cai sobre o mato
e no seu mistério estás em casa
Orelhas de elefante no penteado,
logo do Cunene desçam as águas
seguirás para Nameculungo.
Verás que não perdes a festa do tchindere.
Num sereno chão que germina,
numa solidão de quem só o imagina,
um povo curte suas peles,
e de suaves argilas se enfeita.
Não longe de Epupa,
onde as águas troam
em apertada garganta,
no teu kimbo te vi,
em tons de ocre,
irmã das pedras.
Há batuque em Ondjiva.
São as mulheres guerreiras.
Se não as vês da picada,
podem estar atrás dos embondeiros.
Segue o som dos n'gomas,
cada vez mais forte,
já estamos perto.
Esta é a terra das grandes batalhas.
Tão árida que o sangue não empapou.
Por isso são vermelhos os panos.
Onde houve morte tem de haver nova vida.
Por isso aqui têm de estar as mulheres.
E por isso as suas cabeças se tingem de vermelho.
E não pára o batuque.
Mãe dos pastores,
do deserto solene a altivez
levas em teu plácido rosto.
Vais segura da eternidade,
serena como os bois que guardas,
como ainda os segredos do nonpeke.
Gioconda do Iona
chamar-te-iam os guardiões dos ateliês
se para tanto se despissem
de todos os setentrionais atavios
e apenas ao teu pano de toucado
se ativessem.
Mulher Angolana
que teus filhos entregas
à Terra imensa -
como teus lábios
de tenros talos sequiosa
de pèzinhos dos omonas -
que rápidos aprenderão
em correrias pelo seu chão
a trepar aos paus sem medo,
a matar a fome com goiabas...
Mulher Angolana
ainda teu olhar é de menina,
tens voz de vivida calma
e o olhar profundo e distante.
Ao pé de ti
o meu coração se encosta,
sente bater teus passos quentes,
certo de que sempre me acompanhas...
Primeiro, apenas um toque, breve.
Logo após, de novo chamava.
Estranho número no visor indagava
-"Saberás quem chama, ao de leve?"
Anunciando grave saudade,
apenas tocou, por timidez,
não três, não duas, só uma vez,
silenciado pela ansiedade.
No telemóvel, botão a botão,
da Humpata alguém pulsava
logrando fazer a ligação.
Com uma singela voz
de lá longe nos apelava:
-"Regressem, p'ra junto de nós!"
josé (Kahango) frade
Angolana
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